Excerto do original de

Ingrid Luiza Neto e Hartmut Günther

A Psicologia tradicionalmente atribui grande relevância a características internas do indivíduo, como a personalidade, os interesses ou a motivação. Por outro lado, algumas abordagens teóricas enfatizam o papel dos estímulos do ambiente no comportamento dos indivíduos, na tentativa de demonstrar que os comportamentos são modelados e podem ser socialmente aprendidos. Existe, contudo, uma outra área da Psicologia, que é relativamente pouco conhecida, até mesmo entre os profissionais psicólogos: a Psicologia Ambiental. Esta área da Psicologia busca investigar a relação entre o comportamento do indivíduo (incluindo seus atributos internos) e o ambiente em que esse comportamento ocorre. A principal premissa é que a interação indivíduo-ambiente ocorre de maneira recíproca, não havendo sobreposição das características do indivíduo sobre o ambiente ou vice-versa. Assim, em vez de tratar essas duas variáveis como questões distintas e isoladas, a Psicologia Ambiental considera sua interdependência.
 
Essa relação pode ser facilmente percebida nas interações sociais que realizamos em nosso dia a dia. Ao perguntar se a criança dormiu bem, porque o motorista não respeitou as regras do trânsito ou qual o motivo do colega do trabalho estar de mau humor, estamos investigando não apenas as características individuais da criança, do motorista ou do colega de trabalho. O local e as circunstâncias em que essas situações corriqueiras aconteceram são igualmente importantes. Havia muito barulho no local onde a criança dormia, dificultando que dormisse bem? Não havia fiscalização no trânsito, facilitando que o motorista transgredisse a lei? O chefe chamou a atenção do colega, o que eliciou uma reação de mau humor? Portanto, a noção de espaço e lugar, bem como a percepção que se tem desses ambientes, exercem um papel muito importante na compreensão do comportamento de indivíduos ou grupos.
 
Vamos olhar esta relação entre comportamento e ambiente utilizando o trânsito como contexto. O slogan “nós somos o trânsito”, utilizado em campanhas de educação para o trânsito, sugere que todos os usuários, incluindo o pedestre, o ciclista e o motorista, devem se comportar de maneira adequada, pensando em sua responsabilidade na promoção de um trânsito mais seguro. Nesse contexto, comportar-se adequadamente significa ser um pedestre, ciclista ou motorista cauteloso, que pensa nos demais usuários e não somente em si, agindo em prol da coletividade. Por outro lado, para a Psicologia Ambiental é igualmente relevante compreender como os ambientes físico (a calçada, a ciclovia, a via ou o estacionamento) e social (o compartilhamento desses espaços, com potenciais conflitos entre os diferentes usuários) influenciam os indivíduos. Assim, é necessário compreender de que forma o ambiente pode contribuir para que as pessoas se sintam responsáveis no trânsito e se comportem adequadamente, sem ressaltar apenas as variáveis individuais.
 
Para os psicólogos é quase impossível não enfatizar as variáveis psicológicas dos indivíduos. Na Psicologia do Trânsito, por exemplo, a avaliação dessas variáveis é realizada por meio da aplicação de testes e de outros instrumentos psicológicos, em candidatos que desejam dirigir. Entretanto, há muito mais a cuidar. Para além das características individuais dos motoristas, a Psicologia Ambiental, aplicada ao contexto do trânsito, propõe que é importante compreender também qual a relação entre os diferentes usuários do trânsito (e não somente o motorista) e o ambiente em que se comportam. De que forma um influencia e é influenciado pelo outro?
 
Assim, psicólogos tratam de comportamentos e experiências e, para tanto, não podem desconsiderar a importância do ambiente na personalidade, interesses e motivações.

 

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Ingrid Luiza Neto é Doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília (UnB), Professora Titular de Psicologia e Coordenadora do Laboratório de Psicologia do Trânsito da UDF.
 
Hartmut Günther é Doutor em Psicologia pela Universidade da Califórnia. Professor Titular Emérito de Psicologia e Coordenador do Laboratório de Psicologia Ambiental da UnB.