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Atuação do profissional da Psicologia do Trânsito na COVID-19

por Juliana de Barros Guimarães

Em tempos de pandemia mundial da COVID-19, que está ressignificando não apenas as questões de saúde, mas, sobretudo, as relações interpessoais, tornou-se fundamental refletir sobre os impactos diretos em nossas áreas de atuação.

 

No que tange ao sistema de deslocamento nas cidades, quando nos debruçamos sobre essa nova realidade, percebemos o efeito imediato sobre os deslocamentos de pessoas e mercadorias, seja local, seja entre os municípios, os estados ou os países. Reinier Rozestraten (1998) define o trânsito como “o conjunto de deslocamentos de pessoas e veículos nas vias públicas, dentro de um sistema convencional de normas, que tem por fim assegurar a integridade de seus participantes” (p. 05). Diante do cenário atual, emerge a pergunta: como esses deslocamentos estarão promovendo a integridade de seus participantes neste momento específico? É preciso, assim, lançar um olhar sobre a mobilidade urbana e, sobretudo, humana, em decorrência deste momento e das suas consequências. Enquanto a mobilidade urbana cria condições para que as pessoas possam ir e vir com facilidade utilizando-se de meios de transporte públicos ou particulares e das vias, a mobilidade humana compreende que o ser humano está no centro de todo e qualquer movimento de ir e vir. É um paradigma, portanto, que procura soluções para deslocamentos saudáveis, inteligentes, sustentáveis, inclusivos e seguros, analisando as conjunturas históricas, sociais, políticas, geográficas, estruturais, culturais, dentre outras. Desse modo, esses conceitos juntos ampliam os entendimentos acerca dos deslocamentos dos indivíduos e também de tudo aquilo que possa impactar em seu ir e vir, inclusive no manter-se isolado ou em trabalho remoto (home office).

A partir de agora podemos apontar a particularidade que o espaço do trânsito traz, sobretudo no contexto atual, sobre as (novas) relações de identidade e pertencimento. Segundo Augè (1994), os lugares são identitários, relacionais, históricos e também simbólicos na medida em que neles é representado o indivíduo em relação consigo mesmo e com o grupo. Aponta ainda os locais de ocupação efêmera, de trânsito, como sendo “não lugares”, pois são locais cuja relação com o outro é limitada, onde os indivíduos estão apenas de passagem, sendo espaços despersonalizados, em oposição ao conceito de lugar. Expandindo esse conceito, o mesmo autor afirma que a mobilidade não cria espaços, mas “não lugares”, pois os torna locais de trânsito, de mera passagem, onde deslocar-se é simplesmente atravessar os espaços e suas fronteiras (Augè, 1994). Essa noção do espaço de trânsito como um “não lugar”, onde prevalece o anonimato dos atores envolvidos, com a impossibilidade de marcos afetivos e identificatórios, torna esse “não lugar” um espaço de solidão. Sem identidade não se estabelecem as pertenças a nenhum grupo, o que torna o indivíduo temporariamente livre das normas e cobranças de grupo e dos laços sociais. Nessa condição de anonimato, sem o poder coercitivo do grupo, o indivíduo sente-se livre de possíveis punições (Bauman, 2001). As estatísticas colocam o Brasil entre os cinco países do mundo com maior incidência de acidentes fatais de trânsito. Os dados da OMS mostram que os acidentes por transportes terrestres são responsáveis por 1,35 milhão de mortes (12% do total no mundo) e 50 milhões de feridos em todo o mundo, além de abordar as severas implicações para famílias, comunidades e sociedade em geral (OPAS, 2018). Olhar o trânsito como dissociado do comportamento e das emoções humanas que nele atuam e interagem é um erro que adoece nossa população a cada minuto. Adoece pelas marcas e sequelas físicas, pelas cicatrizes emocionais, pela dor, pela perda, pelo luto por si e pelos seus, enfim, pela humanidade em cada um de nós que se expressa de várias formas. A Psicologia precisa reivindicar seu saber de cuidar do sofrimento humano e mostrar ao nosso país o papel fundamental que pode desempenhar em prol de um futuro com mobilidade humana inclusiva, democrática, sustentável, saudável e feliz. Entendendo que a Psicologia do Trânsito tem forte atuação no campo das políticas públicas, especialmente nas avaliações psicológicas compulsórias para fins de obtenção ou renovação da carteira nacional de habilitação (CNH), a Associação Brasileira de Psicologia de Tráfego (ABRAPSIT) elaborou um documento de recomendações e orientações à categoria e aos órgãos executivos de trânsito dos estados. O documento objetiva orientar psicólogos que realizam a avaliação psicológica para condutores e candidatos a condutores de veículos automotores quanto às práticas que devem ser seguidas, independentemente das peculiaridades estaduais, considerando as características de cada ambiente de realização das perícias psicológicas. As recomendações serviram de modelo para os Departamentos Estaduais de Trânsito (DETRANs) utilizarem como referência na prática dos seus psicólogos e psicólogas credenciados(as) durante o cenário epidemiológico. Também foram debatidas com o CFP as orientações e as práticas recomendadas para atuação dessa categoria profissional e sua especificidade, sobretudo no concernente aos recursos tecnológicos, à atuação on-line e à avaliação psicológica remota. De acordo com a publicação organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) intitulada COVID-19 and the Need for Action on Mental Health (United Nations, 2020), a pandemia da COVID-19 não está apenas atacando a saúde física, mas, sobretudo, a saúde mental da população e, portanto, o campo de atuação da Psicologia como ciência. A publicação defende a importância e a ampliação dos serviços de saúde mental dentro das políticas públicas mundiais. Diante de todos esses impactos observados e da necessidade de atuação de toda a categoria para diminuir esses efeitos nefastos a médio e longo prazo, a ABRAPSIT procurou desenvolver ações em prol da saúde mental dos condutores profissionais. Assim surgiu o Projeto “Rotas da Saúde – seu bem-estar passa por aqui”, que foi constituído como uma ação conjunta da ABRAPSIT com entidades parceiras, como o DENATRAN e o Observatório Nacional de Segurança Viária, e com o apoio da Organização Pan-Americana de Saúde. O projeto é focado no acolhimento aos condutores profissionais (caminhoneiros, motociclistas, taxistas, motoristas de aplicativos e motoristas de ônibus) que se encontram em atividade laboral, desenvolvendo serviços essenciais à população e enfrentando todas as dificuldades desses trabalhos em tempos de isolamento, medo e grandes dificuldades.

O projeto tem como foco principal observar o aparecimento de sinais ou sintomas de: ansiedade, depressão, estresse, burnout, angústia, pânico, uso e abuso de substâncias psicoativas e condições básicas de saúde, procurando fornecer um olhar sobre a importância da saúde mental de forma a estimular a conexão social e relações interpessoais com as devidas medidas de segurança. A partir de projetos como esse, entendemos que cada área específica da Psicologia pode trazer uma contribuição significativa para a saúde mental da população com a qual trabalha e, consequentemente, diminuir os efeitos nefastos futuros decorrentes da situação calamitosa que estamos vivenciando. Os profissionais da Psicologia do Trânsito, como vimos, também têm muito a contribuir.

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